Vamos ao primeiro post de verdadinha?
Na série de postagens começando com este, estarei contando como foi nossa viagem para Bolívia e Peru, primeira para fora do país, realizada em março de 2014, relatando como foi desde o dia da saída do Brasil até o retorno. Elas foram retiradas de um diário que mantenho, portanto haverá riqueza de detalhes e narração em forma de história contada diariamente, com alguns ajustes, claro.
Espero que possa ajudar alguém que está planejando sua viagem, pois durante meu planejamento (que durou uns 2 meses) foi bastante difícil encontrar ajuda detalhada, como gosto.
Tudo começou dia 05 de março, quinta feira após o carnaval. Estava bem animada! O Vitor acordou cedo e já começou a se preparar para despachar seus bens tão preciosos para a casa dos amigos: videogames e jogos. Ajudei ele em algumas coisas e passamos praticamente a manhã inteira nisso. Ao terminar fomos ao banco pois o Vitor precisava resolver qualquer coisa para remediar o acontecido com o cartão que quebrei (fiz essa arte de quebrar o cartão de débito dias antes da viagem :S). Almoçamos e voltamos para casa. Senti umas dores de cabeça chatas e que me preocuparam pois a viagem seria logo mais de noite. Talvez fosse psicológico, pois estava tão preocupada e cuidando tanto para não adoecer.
Chegando em casa cuidei de últimos preparativos da viagem: empacotar últimos produtos de higiente, fechar a mala e envolvê-la com filme... Tentei dormir pra ver se a dor de cabeça passava, o que não adiantou muito. Levantei e verificamos os últimos quesitos de segurança da casa: trancar portas, cadeados e cuidar da comida da gata que ficaria aos cuidados de minha sogra. Ao final disso tudo já era hora de se preparar pra viagem, pois nosso amigo que nos levaria ao aeroporto ficou de nos pegar às 18h.
Não tivemos problemas com o trânsito, apesar de ser pós feriado de carnaval e chegamos rapidamente no Aeroporto JK. Assim que chegamos despachamos as malas e fomos pro andar de cima, onde fica a praça de alimentação. Estava tudo um inferno por lá. Uma barulheira absurda por conta das reformas que estão sendo realizadas em função da Copa. Acabei ficando com mais dor de cabeça. Resolvemos descer para aguardar na sala de embarque, que estava mais silenciosa. O embarque aconteceu muito rápido, sem atrasos.
Nosso vôo seria da seguinte maneira: Brasília/Guarulhos/Lima/Santa Cruz de La Sierra/La Paz (ufa!). Em todas as conexões, com exceção de Santa Cruz haveria troca de aeronave. Extremamente cansativo. Aeronave da Tam no trecho Brasília/Guarulhos e o restante com aeronaves da Lan. Todas velhas e faziam barulho. Uma negação.
| Intinerário até a Bolívia. Estressante. |
Em pouco mais de 1h estávamos em Guarulhos. Era quase meia noite e me surpreendeu o fato de estar tudo tão calmo e lojas fechadas. Sei que já era tarde, mas esse aeroporto tem a fama de ser movimentado sempre por ser tão grande. Tivemos até dificuldade de encontrar comida descente. O checkin da Lan estava fechado e só abriria em 40 minutos. Fomos atrás do que comer nas poucas lojas abertas. Pagamos assustadores 30 reais por 2 empanadas e 2 sucos de latinha. Comemos e aí sim bateu o cansaço... Um sono absurdo e não tinha exatamente um lugar para descansar. 40 minutos de espera e o checkin da Lan abriu e uma fila até grandinha já tinha se formado. Uns 5 minutos esperando na fila e a moça do balcão tentou reorganizá-la causando um pequeno caos que durou seus 10 minutos. Tudo muito amador, pro meu gosto. Fizemos o checkin e seguimos para a sala de embarque. Na hora de passar no detector a funcionária implicou com minha bagagem pois viu um spray no meu raio x. Mostrei e ela viu que era um frasco de cataflan e constatou que sua pesagem estava dentro do permitido. Sem problemas maiores.
Daqui pra frente se seguiriam momentos bastante entediantes: sono sono e mais sono e nada da hora passar. Nosso vôo só sairia 4 da manhã e não tinha nada pra fazer nessas horas que seguiriam. Até tinha: internet grátis e dois livros, mas a verdade é que o sono já tinha se apoderado da gente. Consegui fazer Vitor dormir um pouco no meu colo, por pouco tempo. Nessa tentativa de passar o tempo, descobri um 'brinquedo' : um totem gigante para tirar foto e acessar redes sociais que instalaram no Aeroporto de Guarulhos. Divertido até.
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| Virando criança no Aeroporto de Guarulhos |
Três intermináveis horas depois, finalmente chegou a hora do nosso embarque. Não entendo por que nossos assentos não eram na janela, como sempre reservo. Lembro de ter marcado os lugares no maluco site da LAN. Isso me incomodou um pouco nem tanto pela visão da janela, já que era noite, mas ter onde se apoiar com tanto sono seria bem bacana. Principalmente porque logo mais eu constataria que os assentos da Lan não eram tão confortáveis. A aeronave era mais nova que a da Tam, mas o espaço para o passageiro me pareceu mais apertado. Além do que tinha um trambolho como apoio de cabeça que funciona muito bem para quem é alto, mas não para quem é baixota como eu. Esse acessório ficou empurrando minha cabeça para frente e forçando toda minha coluna. Tentei apoiar uma almofadinha que eles dão num kit na coluna mas não adiantou muito...
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| 'Kit conforto' da Lan. Espaço minúsculo até para baixinhos. Foto de celular. Sem disposição para empunhar uma câmera. |
Quando a aeronave decolou foi que percebi que ela era muito melhor que a da Tam, onde tinha sentido a pressurização e despressurização durante todo o vôo, que me causou grande mal estar acirrado por um barulho que não parava nunca. Nesta não tive nada disso. O vôo foi de uma maneira geral tranquilo. Apenas o desconforto do assento que não ajudava. Não sei como consegui dormir. Acho que não tinha energia mais pra lutar contra o mal estar. Apaguei geral perto do amanhecer do dia. Antes disso serviram um lanche maravilhoso. O melhor que comi até hoje em vôos: sanduíche, bolachas, margarina, goiabada, salada de frutas e sucos. Fiquei empanturrada e surpresa!
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| Lanche bem dotado da Lan. |
Pouco depois de eu acordar, chegamos em Lima. 06 de Março. Como já tinha ouvido falar, paisagem cinzenta e nublada. O aeroporto é maior que eu imaginava. Tivemos que esperar mais um pouco pra tomar nosso vôo. Enquanto isso, Vitor quis experimentar se o cartão de crédito estava realmente funcionando no exterior. Compramos um suco com um muffin numa cafeteria aos olhos da cara.
Havia uma área na sala de embarque mais isolada. Seguimos para lá para descansar um pouco. O Vitor estava precisando mais que eu. Ele não conseguiu dormir durante o vôo com o aperto dos assentos. Só que agora acho que apagou de vez. Se esparramou nas cadeiras da sala (que por sinal são ótimas para isso, pois não têm apoio para braço) e dormiu bastante e bem. Eu dormi leve, acordava com qualquer anúncio de vôo.
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| Zzzzzz |
Chegou nossa hora de embarcar. Como em alguns vôos do Brasil, um ônibus veio nos pegar na porta da sala de embarque e nos levou até o avião. A aeronave era igual à anterior. Durante o vôo nos deram um jornal local, que me chamou atenção uma matéria do Ricky Martin. Lembrei da Fládia, minha irmã (fã de carteirinha, rs).
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| Aê mana... Essa foi pra você. |
Junto com o jornal nos deram os formulários para os trâmites de imigração. Uns trecos bem confusos de se preencher e que, com certeza fizemos errado. Serviram também bebidas e muffin, que estava infinitamente mais gostoso que o que compramos na sala de embarque... Fail.
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| O delicioso e saudoso muffin da Lan. |
O tempo de vôo até Santa Cruz seria 1h e nem percebi passar, de tantas paisagens lindas que pude apreciar: montanhas cobertas de neve, riachos cor de caramelo, e o lago Titicaca. Já deu pra ver que ele é realmente imenso. Deu até pra ver a ilha do sol, que visitaríamos dentro de alguns dias. Inesquecível.
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| Linda paisagem do Lago Titicaca. Aqui se vê a Isla del Sol e a cidade de Copacabana bem ao fundo. |
Chegando em Santa Cruz de la Sierra, apenas vi o tão famoso aeroporto Viru Viru da aeronave, já que não precisamos desembarcar. Feio pra caramba e pequeno. Essa parada foi tranquilizadora, pois observei as aeronaves que em breve teria que utilizar: as da Amaszonas e BoA (Boliviana de Aviación). Me tirou um pouco a preocupação, pois me pareceram bem conservadas. Essa conexão foi um saco. Demorou pra burro. Achei que ia subir mais gente, mas nada. Só demorou muito e sabe Deus porque. Mais ou menos 40 minutos depois levantamos vôo novamente - o quarto e último - dessa vez rumo a La Paz. Achei que nunca ia chegar. Foi mais ou menos 1h de vôo e foi tudo bastante tranquilo. Engraçado que os vôos foram muito bons. Nada de trepidação, zona de turbulência, nada. Me senti super segura.
Já era 16h quando chegamos em La Paz. Estava apreensiva em relação a altitude. Na verdade chegamos em El Alto, cidade vizinha a La Paz, que, como o próprio nome sugere, é alto. É lá que fica o aeroporto. Vitor estava com um humor péssimo. Nervoso, só queria saber se ia respirar normalmente. Acho que na cabeça dele, na hora em que abrisse a porta do avião, ele morreria sufocado, tadinho. Acho que fiquei apreensiva pelo nervoso que ele me passou. Nada de mais aconteceu quando a porta do avião abriu.
Ao sair fomos encaminhados para o setor de imigração, com maior frio na barriga. Coisa de marinheiro de primeira viagem. Mas foi tudo muito tranquilo. Nada com que se preocupar. Só nos fizeram perguntas sobre quantos dias ficaríamos no país.
Após pegar nossas malas, fomos tentar sacar algum dinheiro para as despesas mais urgentes. Localizamos os terminais eletrônicos. Pense num espetáculo. Tinha uma salinha com todos os caixas eletrônicos dentro, e um deles estava em manutenção. Por conta disso estava tudo meio interditado e várias notas de dinheiro inutilizadas (tingidas) no chão, de modo que tinha um policial sinistro (cujos dentes da frente eram de ouro) na porta, que moderava a entrada. Tentei sacar dinheiro com meu cartão de débito em algumas máquinas com a bandeira Cirrus e nada de conseguir. A interface dos caixas não ajudava, parecia jogos de videogame dos anos 80. Até que o 'puliça' percebeu minhas inúmeras tentativas e permitiu que o Vitor viesse me ajudar. Ele e conseguiu sacar com o seu cartão de crédito, graças a Deus.
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| A interface super moderna e altamente intuitiva do terminal eletrônico no Aeroporto de El Alto. Show de bola. |
Saindo do aeroporto fomos pegar táxi. Aliás, o táxi foi nos pegar. Choveu taxista oferecendo seus serviços. Escolhemos um com a cara mais confiante. Já haviam me informado pra negociar, perguntar preço antes.. dito e feito: me pediram 60, chorei pra 40 e fechamos em 50, que, segundo eles, era o preço tabelado - consegui confirmar isso num letreiro ali por perto.
Eu estava grilada. Não queria largar as malas por nada. Elas estavam no carrinho e estávamos tendo dificuldade de empurrar, porque o aeroporto está em reformas e o piso está horrível. O taxista se ofereceu pra levar, puxou o carro da nossa mão e como um touro o empinou e empurrou até o carro. Pense num susto, achando que tava sendo roubada! Saí correndo atrás, mas ele apenas as colocou no porta malas. Como veríamos muito dali em diante o povo boliviano é bem tranquilo e prestativo. Ainda assim peguei a necessaire que tinha coisas mais valiosas, além da bolsa e mochila do marido pra levar no colo. Nunca se sabe...
Seguimos para La Paz numa ladeira sem fim. A sensação era de descer em um funil. Vi paisagens estranhas durante o caminho. As casas amontoadas, sem reboco, com tijolo à mostra. Uma favela gigante. A primeira impressão de quem chega a La Paz não é das melhores. Vi também algumas paisagens bonitas como as formações rochosas se misturando às locações urbanas. Sem falar montanhas nevadas que lembram paisagens europeias. O clima estava ótimo. Achei que estaria mais frio, mas estava apenas agradável... Chegando ao centro um susto antropológico: a maneira de viver dos bolivianos que habitam no centro é chocante. Tudo na rua, tudo solto, tudo do jeito que dá. Cada um por si do jeito que Deus permitir. Muito estranho. Lembro de ter ficado chocada logo de cara.
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| Descendo para La Paz. A cidade é numa espécie de Funil. |
Achamos rapidamente com a ajuda do taxista o hotel que já havíamos reservado pelo Decolar.com, que se chamava Muzungu B&B e dentro de alguns minutos pude perceber que foi a melhor coisa que fizemos: Andar com malas até chegar ao hotel, desde onde o táxi nos deixou (pouco menos de 100 m) foi torturante. Cansaço acumulado de 19 h de viagem, tensão nervosa e choque cultural. Fora que é muito estranho o efeito da altitude. Cansamos super rápido, como se tivesse feito uma corrida de pelo menos 10 minutos.
O hotel ficava no primeiro piso, acima de uma loja. Subimos com muito esforço e chegamos esgotados lá em cima. Fizemos checkin e fomos ver os quartos. Havia reservado banheiro compartilhado mas mudei de ideia e quis ver os com banheiro privado, mas ao vê-los, preferi ficar com o que já tinha reservado. Além de serem bem feinhos, mal preservados, eram no terceiro andar. Uma canseira. Se nosso quarto era no primeiro já dava um bom caldo, imagina no terceiro.
Tudo acertado, seguimos para o quarto. Fizemos todo o 'ritual' de chegada de sempre. Daí saímos para cambiar dinheiro, comprar água e remédios. Me falaram que comprasse de cara as tais Soroche Pills, para não esperar os efeitos da altitude se manifestarem. Tentei encontrar nas redondezas mas achei meio caro e deixei pro dia seguinte. Estava com uma pequena dor de cabeça, mas mais de cansaço que de altitude.
Chegando no hotel, vimos que não tinha toalha. Marinheira de primeira viagem que somos, não sabíamos que tinha que levar nossas próprias coisas. Voltamos pra rua e compramos as famosas toalhas de microfibras (bem quebra galho) que são simplesmente horríveis. Compramos e voltamos ao hotel.
Tudo arrumado, hora do banho. Experiência ruim. O banheiro era grande, a água quente. Até aí tudo bem, mas não tinha onde colocar os produtos de limpeza. Tinha apenas alguns ganchinhos na porta pra pendurar roupas e coisas penduráveis. Tinha que se virar com o sabonete. No meio do banho ainda mexi no chuveiro e saiu muita água fria. Fria não, gelada, cristalizante. Descobri nos dias seguintes que na Bolívia tudo que sai da torneira tem o poder de congelar sua mão em segundos, rs. Em suma, fiz muita lambança. Na hora de me vestir ensopei toda a roupa. Coisa de criança, quase.
Sobrevivemos ao banho, hora de jantar. Ficamos pelo hotel mesmo, que tem um restaurante. Nada de andar muito e se esforçar no primeiro dia, isso é crucial. Pedimos um bife pra dois que vinha com arroz integral. Estava bom. Chato que no hotel não tem cartão de crédito, só na bufunfa mesmo. Comemos pouco pra não forçar o coitado do estômago a uma altitude dessas.
Depois disso, cama. Nada melhor que isso. Dor de cabeça fraca e muito, muito cansaço.
Noite movimentada. Nosso quarto tinha janela pra rua principal e se houvia todo o barulho. Outro choque cultural: os bolivianos tem um horário de trabalho prolongado. 9, 10 horas da noite ainda tem gente trabalhando. Em compensação, abrem o comércio bem tarde também, por volta de 9 da manhã, como veria no dia seguinte. Apesar do barulho e de o quarto penetrar luz mesmo com tudo fechado, conseguimos dormir rápido.
E assim foi nossa cansativa jornada até chegar na Bolívia. No próximo post mais algumas aventuras nessa capital chocante.








